O que é retrospectiva idílica?

Retrospectiva idílica é um fenômeno psicológico que ocorre quando uma pessoa julga desproporcionalmente mais positivamente o passado do que o presente.

Esse fenômeno cria, portanto, um viés cognitivo na mente da pessoa que está sob domínio da retrospectiva idílica.

É, inclusive, um viés cognitivo paralelo ao conceito de nostalgia. A diferença é que a nostalgia nem sempre implique diretamente uma lembrança tendenciosa, necessariamente positiva.

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Como funciona a retrospectiva idílica?

A retrospectiva idílica é facilmente observável no nosso dia a dia. 

Esse fenômeno psicológico aparece, por exemplo, quando alguém reflete sobre os “bons e velhos tempos” enquanto lamentava a sociedade atual. 

Um exemplo típico é quando as gerações mais velhas se lembram como eram felizes na juventude, e como os tempos de hoje são ruins para o seu bem-estar.

Neste caso, não importa o estado atual das coisas, as pessoas sempre pensarão que os tempos eram melhores no passado.

Esse fenômeno impacta significativamente a avaliação das pessoas sobre os avanços e as condições do ambiente institucional e material do presente.

Ou seja, a pessoa acometida pela retrospectiva idílica negligencia os fatos novos que podem dar a sensação de que o passado era melhor.

Uma causa disso é que a idade e os problemas de saúde são fatores importantes que afetam o bem-estar das pessoas, induzindo a sensação de que o passado era melhor.

Neste sentido, não é necessariamente o passado que era melhor, mas sim que as condições físicas, que afetam os sentimentos da pessoa, eram diferentes.

Segundo alguns estudos, a retrospectiva idílica ocorre porque os anos de juventude, mais especificamente entre 10 e 30 anos, coincidem com períodos em que as pessoas têm memórias mais salientes emocionalmente. 

Conhecida como colisão de reminiscência, as memórias de longo prazo mais vívidas são frequentemente originadas das idades entre 10 e 30 anos, que é quando muitos dos momentos significativos da vida ocorrem.

Além disso, jovens saudáveis são mais propensos a admirar as belezas da vida do que pessoas idosas ou de meia idade, sobre os quais os problemas de saúde aparecem para gerar um incômodo adicional.

Se perguntarmos a uma criança de hoje se ela gostaria de viver nos anos 80, em um mundo sem internet e com tecnologia inferior, provavelmente a resposta será negativa.

Já uma pessoa de 80 anos sente saudade da década de 50, mas provavelmente não gostaria de ter nascido na Idade Média.

A tendência é que o mundo evolua e crie cada vez melhores condições de vida.

Efeitos da retrospectiva idílica

Uma percepção tendenciosa do passado em relação ao futuro pode levar a avaliações imprecisas de ambos os períodos. 

Ao monitorar o progresso ao longo do tempo, é mais provável que se perceba o passado como melhor do que era. 

Com uma visão distorcida do passado como ponto de referência, a perspectiva atual também se torna distorcida, percebida como pior do que realmente pode ser.

Esse fenômeno gera implicações importantes principalmente na política.

Quando se agrega os sentimentos positivos ao passado pode-se gerar uma tendência da opinião pública a valorizar mais o contexto político passado do que o atual.

As consequências políticas de uma opinião pública tendenciosa podem ser vastas.

O apoio político ao nacionalismo testemunhou um crescimento significativo na segunda década do século XXI. 

Campanhas que celebraram um passado lembrado com carinho por muitos conquistaram apoio em todo o mundo. 

O referendo do Brexit de 2016 resultou na votação do Reino Unido pela saída da União Europeia, um esforço para retomar sua independência. 

O resultado vai em linha com o fenômeno da retrospectiva idílica quando analisa-se os votos em favor do Brexit por idade.

Verificou-se que metade dos adultos britânicos com mais de 50 anos relatou que a vida no passado era preferível à vida hoje. 

Além do Reino Unido, movimentos políticos em torno de um mantra nostálgico tiveram amplo apoio nos Estados Unidos, França e Alemanha.