O Que Está Por Trás da Decisão da Tesla em Não Aceitar mais Bitcoin?
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O Que Está Por Trás da Decisão da Tesla em Não Aceitar mais Bitcoin?

O anúncio de que a Tesla não vai mais aceitar pagamento em bitcoin gerou uma dúvida entre os especialistas: consciência ou marketing?

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Atualizado em 14/05/2021

A recente decisão da Tesla (TSLA34) em parar de aceitar bitcoin (BTC) como meio de pagamento pegou os entusiastas do mercado de criptomoedas de surpresa.

O comunicado feito pelo CEO bilionário, Elon Musk, por meio do seu Twitter cita a preocupação “com o rápido aumento do uso de combustíveis fósseis para a mineração e as transações de bitcoin”.

Mesmo alertando sobre o “grande custo da criptomoeda para o meio ambiente”, Musk também afirmou que a empresa não venderá suas moedas.

Ele pretende usar esses recursos para transações assim que a mineração de bitcoins passar a usar energia mais sustentável.

A decisão da fabricante de carros elétricos causou alvoroço instantâneo no mercado de criptomoedas.

O preço do bitcoin chegou a cair mais de 10% depois do anúncio.

Um dos pontos que mais tem chamado atenção é o poder de influência que Elon Musk consegue ter sobre o preço de diversos ativos no mercado financeiro.

Em fevereiro, a Tesla anunciou que comprou US$ 1,5 bilhão em bitcoin.

Seis semanas depois de anunciar que aceitaria pagamentos em Bitcoin de clientes nos Estados Unidos, ocorreu a repentina reversão de Musk.

Será que o bilionário acabou de perceber que a mineração de Bitcoin (BTC) queima uma tonelada de combustíveis fósseis?

A declaração é considerada por muitos como manipulação de mercado.

Seria sobre marketing e, potencialmente, construir suporte para energia solar ou biocombustíveis como fonte de energia para a produção de Bitcoin pela Tesla?

Veja o que os especialistas do mundo inteiro estão dizendo sobre isso.

Preocupações climáticas em torno do bitcoin

O problema ambiental do bitcoin não é uma novidade. Os pesquisadores do clima há muito tempo expressam suas preocupações sobre a crescente quantidade de energia necessária para a mineração da criptomoeda.

Bill Gates tem sido um crítico do bitcoin por usar “mais eletricidade por transação do que qualquer outro método conhecido pela humanidade”.

No início deste ano, a secretária do Tesouro dos EUA, Janet Yellen, disse à rede americana CNBC que o Bitcoin era “extremamente ineficiente”.

“A quantidade de energia consumida no processamento dessas transações é impressionante”, disse ela.

De fato, o bitcoin consome muita energia em seu processo de mineração.

As transações e a criação de novos bitcoins são realizadas por mineradores que utilizam computadores de alta potência para competir entre si e resolver quebra-cabeças matemáticos complexos.

É um processo de uso intensivo de energia que depende principalmente da eletricidade gerada com combustíveis fósseis, como o carvão.

A muito tempo o computador de uso pessoal não pode ser utilizado para a validação das transferências de Bitcoins.

Foram desenvolvidos ASICs (circuitos integrados de aplicação específica, na sigla em inglês), feitos sob medida para resolver a fórmula do Bitcoin.

Para aumentar os lucros, a mineração do Bitcoin é hoje realizada por empresas dedicadas a esse trabalho. Há um grande número de computadores ligados à rede que trabalham quase constantemente para resolver os enigmas.

A CBECI (Índice de Consumo de Eletricidade Bitcoin da Universidade de Cambridge ) calcula que, atualmente, o Bitcoin está usando cerca de 149 terawatts-hora (TWh) de eletricidade por ano.

Essa quantidade não tende a cair, a menos que o valor da criptomoeda despenque.

Vale destacar que 1 terawatt equivale a 1 bilhão de quilowatts.

A título de curiosidade, esse total é maior do que o consumo inteiro da Argentina, país de 45 milhões de habitantes.

No mês passado, pesquisadores chineses revelaram que os mineradores de Bitcoin na China, responsável por mais de 75% da mineração de bitcoins, podem estar produzindo 130 milhões de toneladas de carbono por ano até 2024.

Para David Gerard, autor do livro “Attack of the 50 Foot Blockchain: Bitcoin, Blockchain, Ethereum & Smart Contracts”, uma potencial solução seria cobrar taxas de carbono sobre as criptomoedas:

“Bitcoins são literalmente anti-eficientes. Não adianta ter hardwares mais eficientes para a mineração. Eles só estarão competindo com outros hardwares eficientes. Isso significa que o uso energético da bitcoin e sua produção de CO2 só crescem. É muito ruim que toda essa energia seja literalmente desperdiçada em uma loteria.”

O problema é que ainda há pouco incentivo para mudar de combustíveis fósseis (baratos) para fontes de energia renováveis ​​(mais caras).

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Tesla e Bitcoin

O relacionamento da Tesla com as criptomoedas tem sido uma montanha-russa. 

Em fevereiro, a fabricante de veículos elétricos anunciou que comprou US$ 1,5 bilhão em bitcoin e planejava aceitar a criptomoeda como meio de pagamento de seus clientes. O que se concretizou no mês seguinte.

Na época o preço da criptomoeda subiu de US$ 39.000 para US $ 46.000, em seu caminho para uma alta de quase US$ 65.000 em abril.

No final de abril veio a notícia de que a Tesla havia vendido 10% de suas participações em bitcoins, supostamente para demonstrar a liquidez da moeda digital.

O movimento resultou em um lucro de mais de US$ 100 milhões para a montadora.

Agora, na última quarta-feira (12), Elon Musk movimentou o mercado mais uma vez com seu tweet com o anúncio de que a Tesla suspendeu as compras usando bitcoin.

A justificativa foi a preocupação sobre o “uso crescente de combustíveis fósseis” usados ​​na mineração da criptomoeda.

Isso gerou uma grande liquidação nos mercados com o bitcoin caindo de cerca de US$ 55.000 para US$ 45.000. Nesta sexta-feira (14) o bitcoin opera na faixa de US$ 50.000.

É difícil acreditar que Musk e Tesla não estivessem cientes desses problemas no início do ano. 

Nunca esteve claro como o uso da criptomoeda pela Tesla cumpria a missão declarada da empresa de “acelerar a transição do mundo para a energia sustentável”.

O fato de que a Tesla pretende manter o bitcoin que possui torna o anúncio ainda mais confuso.

Para analistas de mercado entrevistados pela BBC, a mudança é vista como uma tentativa da Tesla de amenizar as preocupações de investidores focados no aquecimento global e na sustentabilidade.

“As questões de governança ambiental, social e corporativa (ESG) são agora uma grande motivação para muitos investidores. A Tesla, sendo uma empresa com foco em energia limpa, parece querer atuar melhor na área ambiental de ESG”, disse Julia Lee, da Burman Invest.

Para outros, este é apenas mais um movimento de Elon Musk para influenciar o mercado de criptomoedas, como ele já fez em outras ocasiões.

O fato é que não dá mais para ignorar as preocupações ambientais, sociais e de governança.

A Tesla é destaque em muitos fundos ESG por causa de seus carros elétricos. Até pouco tempo atrás outras questões eram ignoradas.

No entanto, a transparência digital agora permite que os ativistas monitorem as atividades das empresas com mais eficácia do que nunca.

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Repercussão do movimento de Musk

O que estaria por trás da decisão de suspender a aceitação de bitcoin para as compras dos carros elétricos da Tesla já que Elon Musk sempre foi um defensor da criptomoeda?

Muitos especialistas do mercado deram sua opinião sobre o movimento.

Mark Maslin, professor de ciência do sistema terrestre na University College London, aprova a decisão e diz que isso enviaria um forte sinal para que outras empresas seguissem o mesmo caminho.

“Fiquei surpreso, mas extremamente satisfeito com o anúncio de Musk. Isso mostra que empresas verdes como a Tesla estão levando todos os aspectos de seus negócios a sério quando se trata de mitigar as emissões de carbono. Espero que outras empresas o façam rapidamente para garantir que as compras de bens sejam neutras em carbono. ”

Mesma opinião do acadêmico da Royal Society Wolfson Research Merit:

“A motivação por trás da decisão de Musk é fazer a coisa certa para o meio ambiente e garantir que a Tesla mantenha sua posição como uma empresa verde líder”, disse. 

“As empresas e organizações são profundamente conservadoras e raramente querem ser as primeiras em algo que pareça arriscado ou à frente do campo. Foi o mesmo quando as empresas começaram a pensar em se tornar neutras em carbono: nenhuma queria ser a primeira. Eu espero que a maioria das grandes empresas siga a Tesla ao recusar o Bitcoin em um futuro próximo. ”

A fundadora da organização voluntária End Climate Silence e revisora ​​ do Sexto Relatório de Avaliação do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU, Genevieve Guenther,  também saudou a decisão, mas se perguntou se havia mais de uma motivação por trás dela.

“Fiquei feliz em ver que Musk decidiu não aceitar mais o Bitcoin como moeda. Dadas as demandas extremas de energia da mineração de Bitcoin, o mundo precisará se afastar dessa moeda se quisermos reduzir nossas emissões de gases de efeito estufa a zero, o que envolverá aumento da eficiência e redução do consumo como está ”, disse ela.

“No entanto, não acho que Musk mudou de ideia sobre o Bitcoin por razões puramente altruístas. Acho que a marca Tesla depende da percepção de que Musk é um campeão do clima, o que é uma imagem difícil de manter quando você está promovendo o Bitcoin. ”

O fato da Tesla manter os bitcoins no balanço patrimonial da Tesla é visto com desconfiança por Nick Spanos, fundador do Bitcoin Center em Nova York e cofundador do Zap Protocol.

Para ele, isso significa que Musk ainda está disposto a colher os lucros do que ele considera um perigo ambiental sujo.

Spanos disse ao Cointelegraph que “se o Bitcoin é muito sujo para ele aceitar como pagamento por seus veículos elétricos, então também deveria ser muito sujo para obter lucros”.

Para ele, sempre foi muito contraditório que a Tesla aceitasse trocar moedas “sujas” por carros “limpos”, levantando a questão de que se Elon Musk estivesse realmente preocupado com o meio ambiente, ele não permitiria isso desde o início.

O professor sênior de ecologia aplicada no Imperial College London, Will Pearse, também foi crítico à abordagem de Musk.

“O anúncio foi feito após a pesquisa de Musk sobre o interesse em um tipo diferente de criptomoeda: Dogecoin”, disse Pearse.

“Assim, o Sr. Musk parece ter mudado sua opinião sobre a coisa toda literalmente da noite para o dia, o que talvez deva ser menos surpreendente para mim do que foi.”

Musk disse que a Tesla também estava potencialmente interessada em aceitar pagamentos em criptomoedas com menos de 1% da pegada energética do bitcoin. 

Nos últimos meses, Musk tem tuitado muito sobre o Dogecoin, ajudando a criptomoeda que nasceu de um meme a se transformar na quarta maior do mundo.

De fato, no início desta semana, Musk fez uma pesquisa em sua conta do Twitter, perguntando: “Você quer que Tesla aceite doge?” A resposta esmagadora de seus seguidores foi “sim”.

Outra hipótese levantada foi de que a Tesla poderia utilizar a declaração para investir em novos projetos que visam impulsionar o uso de energia renovável na mineração do bitcoin.

“Musk e Tesla certamente têm os recursos para apoiar os esforços existentes para mover totalmente o bitcoin para a energia renovável”, disse Diana Biggs, CEO da startup de criptografia Valor.

Projetos globais estão procurando maneiras de mudar a mineração de bitcoins para uma energia mais limpa, ou pelo menos para reduzir sua pegada de carbono, de reaproveitar o calor gerado pela mineração usando gás de combustão – um subproduto da extração de petróleo – para mineração.

A empresa de pagamentos Square Inc., dirigida pelo CEO do Twitter, Jack Dorsey, disse no ano passado que doaria US$ 10 milhões para apoiar empresas que impulsionam o uso e a eficiência das energias renováveis ​​no setor de bitcoin.

Em teoria, disseram especialistas em blockchain, seria possível rastrear quais bitcoins foram produzidos de forma sustentável, dando também à Tesla a opção de aceitar apenas bitcoins mais verdes.

“Ele provavelmente pode investir em algumas mineradoras de energia verde e exigir que a Tesla seja paga apenas por bitcoins extraídos de forma verde”, disse Maya Zehavi, consultora de criptomoeda e blockchain.

Para Sasja Beslik, chefe de desenvolvimento de negócios sustentáveis ​​do Bank J. Safra Sarasin em Zurique, a mudança pode representar uma tentativa de reforçar as credenciais ambientais da Tesla em meio à crescente competição no setor de veículos elétricos.

“Minha indicação disso é que é uma forma de fortalecer ainda mais a marca”, disse. “Cabe a eles manter qualquer moeda que quiserem. Mas, dado o fato de que tem uma pegada pesada de CO2 … é uma coisa desafiadora.”

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