Passado o impacto mais forte da pandemia sobre as instituições financeiras, os bancos estão agora mais preocupados com a alta da inflação e com o risco político, diante da crise institucional e da perspectiva de eleições presidenciais polarizadas em 2022.

Pesquisa feita pelo Banco Central (BC) no Relatório de Estabilidade Financeira (REF), divulgado ontem, mostrou que a palavra “inflação” é a mais citada por dirigentes de instituições na nuvem de palavras que descreve as fontes de risco mais importantes.

No documento, referente ao primeiro semestre, a autoridade monetária também alertou para o aumento da inadimplência do crédito imobiliário com recursos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), o que “requer acompanhamento”.

“Entre os temas que estão sendo mais citados pelo sistema financeiro como um todo, hoje [o mais citado] acaba sendo a questão de inflação”, disse em entrevista o diretor de fiscalização do BC, Paulo Souza.

“Continuam discussões sobre juros, incerteza nas reformas, a covid-19. Mas hoje o tema principal é inflação e a atividade”.

No REF, a autoridade monetária disse que, nesse caso, a inflação “pode se referir tanto à inflação global como à doméstica, refletindo a subida de preços global e interna”.

O BC também destacou que “riscos exclusivamente políticos ganham força no balanço de riscos à estabilidade financeira”.

“Os riscos políticos são sempre citados na Pesquisa de Estabilidade Financeira”, disse Souza.

“Tudo indica que será uma eleição bastante acirrada, polarizada. O complicador maior, quando a gente fala sobre o ano de eleição, é que geralmente nesse período há maior aversão ao risco por parte das famílias e empresas. Isso prejudica um pouco a atividade econômica.”

Já o crédito imobiliário com recursos do FGTS, segundo a autoridade monetária, passa por um “aumento relevante de materialização de risco”, em função da alta “significativa” do percentual de ativos problemáticos na modalidade.

O movimento contrasta com os créditos com recursos do Sistema Financeiro Habitacional (SFH) e livre, em que há queda do percentual de ativos problemáticos.

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“Além do aumento de inadimplência ao longo de 2021 [no crédito com recursos do FGTS], o volume de reestruturações não cai de maneira relevante, como observado em outras linhas, indicando possível piora de capacidade de pagamento dos tomadores dessa linha”, disse o BC.

Desde junho do ano passado, o crescimento mais forte do percentual de ativos problemáticos, no caso do FGTS, foi observado entre tomadores de empréstimo com renda inferior a dois salários mínimos.

Outro ponto abordado no REF foi o impacto que a reforma tributária teria sobre as instituições financeiras.

Nos cálculos do BC, uma redução de 8 pontos percentuais da alíquota do Imposto de Renda (IR), como está na proposta de reforma, diminuiria o Índice de Basileia do Sistema Financeiro Nacional (SFN) de 16,9% para 16,4%, “em razão da reavaliação de créditos tributários e obrigações fiscais”.

O diretor lembrou que a “exigência regulatória [para o Índice de Basileia] é na faixa de 11%”, folga que faria com que o impacto causado pela reforma não fosse “significativo”.

Em um primeiro momento, a mudança levaria a uma “reavaliação do crédito tributário, sem efeito no caixa dos bancos”, segundo o BC.

“No geral, a reforma tributária é positiva porque ao longo dos próximos anos logicamente os impostos pagos serão inferiores”, disse o diretor da autoridade.

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Por sua vez, o endividamento das famílias não teve “aumento relevante” no primeiro semestre, de acordo com Souza, lembrando também que parte dessas dívidas foi contraída no ano passado, com taxas de juros menores.

Mas o diretor destacou que, além da elevação da Selic, a curva de juros mostra que as taxas anuais cobradas em operações de três a cinco anos estão próximas de dois dígitos - em alguns casos, acima de 10%.

“Se essas famílias precisarem renovar as operações, teremos um impacto no endividamento”, disse. Atualmente, a taxa básica de juros está em 6,25% ao ano.

Fonte: Folha de São Paulo.